..'Tem um violão que é para as noites de Lua.'

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um amor de tantas rugas

As ferias tinham finalmente chegado..
E eu ja estava meio atrasada..
Com as malas prontas e de banho tomado, mas estava atrasada..
Corri pra rodoviaria, precisava estar alí, apesar de odiar lugares que me lembrassem despedidas..
Eu nao era a unica fora da hora, o onibus nao havia chegado ainda..
Resolvi fumar um cigarro pra passar o tempo, mas me lembrei da maldita lei de Sao Paulo, entao mudei de ideia, e peguei meus fones de ouvido, pra escutar a musica..
Aquela.. Que me ardia o estomago!

O onibus estacionou, e fui direto a fila pra guardar minha mala
Entrei e me sentei a janela ( é bom ver a paisagem passar rapida a frente de seus olhos, apesar de ser noite.)
Torci pra ter a sorte de me sentar sozinha..
Nao tive tal satisfaçao.. Um senhor sentou ao meu lado, bem velhinho mesmo, daqueles que voce imagina que ira durmir antes do onibus começar a viagem.
Me deu um sorriso singelo e meio sofrido.. Contribui com o meu melhor, pois apesar de tudo, amo velhinhos!
- Qual o seu nome moçinha?
-- Rafaela, e o seu?
- Me chamo José. Muito prazer..
-- Prazer!

O silencio pairou, me ajeitei na poltrona, e reparei que Seu José colocou o sinto de segurança, pegou uma garrafinha velha de agua e se confortou na poltrona tambem com as maos cruzadas sobre o colo.
Nao demorou muito e ele ja puxou papo.

-Vai para onde Rafa?
-- Estou indo pra minha cidade, Varginha.
- Oooh, ja morei la a muito tempo atraz, conheci minha esposa lá. Tinha 18 anos, namoramos muito tempo e logo ja pedi ela em casamento! Sabia que ela era o amor da minha vida, ai nao podia esperar ne? hahahaha

A intimidade dele comigo ja era muita, e a minha curiosidade também!

--Como se conheceram?
- Ahh, me lembro como se fosse hoje! Ela era a mais linda das festinhas com toca vinil que faziamos na garagem do Tony. Ficamos bons tempos nos paquerando, as coisas naquela epoca eram bem diferentes de hoje, menina! Nao era facil conseguir namorar uma moça nao! Entao um dia criei coragem e pedi ela em namoro.. Dia 27 de março de 1958! Pois é menina, faz tempo!
-- Noossa! muito tempo mesmo.. Mas e ela? Aceitou?
- Hahahaha, fez o charminho dela, mas aceitou! Entao começamos a namorar. Era lindo, andar de maos dadas a ela na rua, fazer as serenatas, busca-la no colegio, lhe dar rosas e mandar chocolates quando ela estava na casa de suas amigas! O amor era demais, das duas partes..
Eu reparava que seus olhos brilhavam escandalosamente quando falava dela.. Ele exalava amor..
E a aliança embaçada no dedo dava a impessao que ja estava ali a tanto tempo que nem saia mais!

-- Que historia mais linda Seu Joze!
- Pode me chamar de Seu Zé, por favor!
-- Claro, e quando se casaram?
- Quando fizemos 4 anos de namoro, 4 anos maravilhosos, resolvi que ja era hora, que nao tinha sentido esperar mais.. Entao, pedi para meus amigos me ajudarem a fazer a serenata, assim que ela saiu a janela escalei a janela pela trepadeira que tinha ao lado, e consegui chegar na varandinha de seu quarto.. Me ajoelhei, classico, e.. 'Meu amor, você quer viver comigo, ate o fim de nossas vidas?'

Reparei uma lagrima por querer cair, mas o velho a segurou.

- .. foi o SIM mais gostoso que ja escutei, e nos abraçamos em lagrimas que nao acabavam mais. Eu estava completo naquele momento.. Nao precisava de mais nada, e eu nem ouvia mais o som da serenata que meus amigos catavam la em baixo. Era so eu, e ela!
-- O senhor esta indo ver ela? Onde ela está?

Queria jamais ter feito essa pergunta.
As lagrimas que seu Ze havia segurado, agora caia desesperadamente, como choro de criaça quando rala o joelho.
Eu nao precisava de respostas, ja imaginva tudo que havia acontecido.

- Ela morreu ao meu lado, assim como lhe propus quando a pedi em casamento.
-- Oh, seu Ze, me descu....
- Nao menina, nao se desculpe! Me lembro muito daqueles dias, em que sentei ao lado de seu corpo, com o nosso album de casamento nas maos fracas. Parecia que sorria pra mim. Nao larguei sua mao macia nem por um minuto. Nunca imaginei ela partir antes de mim!

Eu, uma futura psicologa, nao conseguia falar uma palavra! So estava com aquele nó insuportavel na garganta, de quando voce quer chorar, mas nao pode.

- .. agora minha vida é assim menina.. Só existo, pois morri com meu amor naquela terça feira!

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